Comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede: Guimarães "sabe olhar para trás com respeito e para diante com coragem", afirmou vereadora da cultura na abertura de Colóquio Internacional

"Ligar saber e sensibilidade", "inclusão e bem-estar" foram princípios apontados esta sexta-feira pela vereadora da cultura para a consolidação de Guimarães como um território de pensamento europeu contemporâneo.
Na sessão de abertura do primeiro Colóquio Internacional "Gestualidade Feudal. Nos 900 anos da Investidura de D. Afonso Henriques (Zamora, 1125)", que decorre até amanhã na Sociedade Martins Sarmento, organizado no âmbito das comemorações dos 900 anos da Batalha de São Mamede, Isabel Ferreira destacou a importância dos valores do passado num novo modelo de Cidade. "Afonso Henriques soube fundar um reino através do gesto e da visão, Guimarães funda hoje um novo modo de pensar a cidade, onde a sua história, memórias e culturas são motores de transformação, o conhecimento é ferramenta de governação e a beleza é a condição de cidadania", apontou, parafraseando Raul Brandão: "em Guimarães tudo é alma, tudo é lembrança. O passado não é um peso, é uma força". "Essa força - feita de memória, de trabalho e de sonho - é o que continua a mover esta cidade, que sabe olhar para trás com respeito e para diante com coragem", continuou, justificando que ao evocar a investidura de 1125 em Zamora e a Batalha de São Mamede, em 1128, celebra-se "não apenas os começos da nossa história, mas a continuidade de um modo de ser e de governar: assente no conhecimento, na memória e na coragem de inovar".
"Aqui, a ideia de Portugal passa do sonho à acção. É aqui o ponto de inflexão em que Afonso Henriques deixa de ser herdeiro e se torna protagonista, afirmando uma legitimidade política que conduzirá à independência do reino. É neste momento, e neste lugar, que o poder político português nasce da coragem e da inteligência estratégica de um líder que compreendeu que a força do gesto é inseparável da visão do futuro", realçou, no evento que inicia o programa científico das comemorações, ao acrescentar que Afonso Henriques "soube transformar a autoridade conquistada em projecto político".
"A matriz de poder e identidade que norteou, ao longo dos séculos, o desenvolvimento de um território, que soube (e ainda sabe) transformar a sua história em motor de futuro. A cidade que viu nascer o primeiro rei é também a cidade que soube reinventar-se, preservando e revalorizando o seu património de séculos", sustentou, considerando que a distinção atribuída pela UNESCO ao Centro Histórico em 2001, ampliada à Zona de Couros, em 2023, "é um exemplo vivo de coerência urbana e de continuidade histórica". "Esta nova classificação não é apenas um selo de memória: é um ponto de partida para o futuro", enfatizou Isabel Ferreira, salientando que o projecto Bairro C é "um laboratório colectivo de experimentação que pensa e projecta Guimarães como cidade de inovação, conhecimento, inclusão, beleza e sustentabilidade". "Este modelo de governação, que cruza herança e vanguarda, memória e criação, conduziu Guimarães ao reconhecimento de Guimarães Capital Verde Europeia, em 2026, distinção que honra a forma como o município tem sabido integrar sustentabilidade ambiental, cultura e inovação urbana numa mesma visão de futuro, reforçando e consolidando, assim a sua matriz de poder e de identidade", frisou a vereadora da cultura, concluindo: "Portugal nasceu de um gesto - e Guimarães continua a ser a cidade desse gesto: a cidade que honra o passado, pensa o futuro e o constrói com inteligência, rigor e beleza".
Na cerimónia, o coordenador da comissão científica das comemorações destacou que o colóquio permite aprofundar "o que significa a investidura do jovem infante", abrindo caminho à "assunção de uma série de responsabilidades". Luís Carlos Amaral indicou que "a partir desse momento, a sua voz tinha um fundo de legitimidade para ser ouvida e para poder intervir". "É um significado fundamental para a consolidação do poder político", prosseguiu, ao adiantar que no próximo ano será realizado um novo colóquio que será dedicado à arte no Condado Portucalense no reinado de Afonso Henriques. "São focos que vamos ligando para percebermos melhor Afonso Henriques e o seu tempo. Estamos perante uma pessoa que é um gigante já no seu tempo, um estadista invulgar e não precisamos de revestir com outro tipo de aura para percebermos que estamos perante um líder", observou.
O Presidente da Comissão Organizadora do Colóquio valorizou o aprofundamento do conhecimento sobre D. Afonso Henriques para conhecer a importância dos símbolos de identidade que persistem na actualidade e que "nos identificam a todos". "Se eu chegar à Nova Zelândia e vir umas quinas, eu sei que por ali perto há um português. E são esses símbolos que nos unem a todos. Por isso, é tão importante a aproximação à figura de alguém que, dentro das suas limitações como qualquer ser humano, foi responsável juntamente com outros pela fundação de um reino, um país, uma nação que ainda hoje prevalece", enalteceu José Augusto Sottomayor-Pizarro.
Neste primeiro dia, o Colóquio foi marcado por conferências de Fernando López Alsina, Carlos Andrés González Paz, João Paulo Ferreira, José Carlos Ribeiro Miranda, Aires Gomes Fernandes e Cláudio Neto, sendo partilhadas diferentes perspetivas sobre o contexto político, social e cultural do século XII, abrindo novas leituras sobre a figura de D. Afonso Henriques e a sua época.
O programa prossegue amanhã, sábado, com novas comunicações, tendo como oradores Stefano Cingolani, Maria João Violante Branco, Francesco Renzi, Adelaide Miranda, Ana Cláudia Silveira e Pedro Picoito.
Promovido pelo Município de Guimarães com o apoio de várias instituições científicas e académicas, o colóquio internacional integra-se nas Comemorações dos 900 Anos da Batalha de São Mamede (1128–2028).