Pólo Arqueológico do Ave no palacete de Martins Sarmento: edifício será recuperado e reforçará aposta na cultura

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O Pólo Arqueológico do Ave deverá ficar instalado em Guimarães, no palacete onde viveu o arqueólogo Francisco Martins Sarmento, situado na área classificada como Património Mundial da UNESCO. O edifício histórico terá de ser reabilitado e ampliado, de forma a integrar a rede de pólos arqueológicos da Região Norte, projecto inovador do Plano de Acção Regional para a Cultura Norte 2030, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN).

“O projecto surge da iniciativa da CCDRN que pretende dotar a zona Norte de uma rede de pólos arqueológicos, de escala e vocação intermunicipal, que visa garantir a gestão, conservação e valorização dos materiais provenientes das escavações arqueológicas que se realizam no território”, contextualiza o Presidente da Sociedade Martins Sarmento (SMS), instituição sinalizada para acolher o pólo arqueológico da Comunidade Intermunicipal do Ave. “A ideia é criar em cada CIM um pólo arqueológico que seja capaz de receber e tratar estes espólios, fomentar o seu estudo pela comunidade científica e proceder à sua divulgação. Há um trabalho de mediação cultural que é muito importante e que se espera deste tipo de instituição”, acrescentou Antero Ferreira, ao salientar que a SMS desde logo pensou que “o sítio ideal para localizar esse serviço seria o palacete de Francisco Martins Sarmento, antiga residência do patrono da Instituição, quer pela oportunidade de recuperar este edifício quer pelo simbolismo que representa ter um pólo arqueológico sediado naquela que foi a casa de um dos maiores arqueólogos portugueses”.

Ressalvando que a reabilitação do palacete tem sido uma preocupação das anteriores direcções da SMS, existindo até um projecto aprovado e licenciado pelo Município, o responsável apontou que a oportunidade de obter “financiamento surgiu agora”, beneficiando “do trabalho que já estava feito”.

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Embora tenha de ser feita a devida adaptação da requalificação inicialmente prevista, em conformidade com a nova realidade de acolher uma estrutura com as características de um pólo arqueológico, a proposta da SMS vingou, estando já a ser desenvolvidos os procedimentos para que o projecto corresponda a todas as exigências. Prevê-se assim a requalificação do imóvel histórico e a sua ampliação, com a construção de “um corpo novo, ocupando parte da zona do actual jardim, encostado ao edifício principal, com entrada ao nível da Rua Agostinho Barbosa, aproveitando o desnível do terreno”.

“Para fazer esta intervenção foi necessário fazer uma prospecção arqueológica para averiguar se existiria alguma estrutura neste espaço, porque é uma zona sensível, situada dentro dos limites da muralha da Cidade”, indica Antero Ferreira, ao precisar que “a equipa de arqueólogos não detectou nenhuma estrutura significativa, foram encontrados vestígios de cerâmica que conseguem atestar a ocupação do espaço até períodos medievais”. “A casa que vemos data do século XIX, estando assente sobre pré-existências que foram sucessivamente aumentadas, dando origem ao palacete actual”, continua, ao realçar que o edifício acolheu diversos serviços públicos, ao destacar o “lastro histórico” do envolvimento do Município com a obra.

“Quando a SMS assumiu a posse por morte dos herdeiros de Martins Sarmento, o palacete foi cedido ao Município. Aqui funcionaram durante muito tempo os serviços da Câmara Municipal de Guimarães e das Finanças! Houve até um projecto para instalar aqui o Arquivo Municipal. Quando a Câmara saiu destas instalações, cedeu o edifício a várias associações, sendo a última ocupante a UNAGUI. O edifício foi finalmente devolvido à SMS, mas há um conjunto de protocolos que formalizam esta relação e a responsabilidade do Município relativamente à execução das obras de recuperação do edifício, na medida em que nos anos setenta houve um grande incêndio, toda a cobertura foi destruída e houve estragos significativos no interior. Há uma responsabilidade pública assumida para a reconstrução deste edifício”, detalhou, ao lembrar que esse compromisso permitiu que a Casa de Sarmento, uma Unidade Cultural Diferenciada da Universidade do Minho, ali instalasse os seus serviços, em 2019, ocupando somente o rés-do-chão.

“O projecto de refuncionalização envolve a realização de obras em todo o edifício que terá uma utilização polivalente, o rés-do-chão estará vocacionado para a instalação deste pólo arqueológico, existindo um conjunto de serviços, desde a Casa de Sarmento, até serviços próprios da SMS que irão utilizar o resto do imóvel”, assinalou, ao considerar que será possível “dar continuidade ao legado de Martins Sarmento, honrando a sua memória, com a adaptação aos tempos actuais”.

“Este pólo poderá ser um importante centro de investigação sobre os materiais que aqui serão depositados e de irradiação do conhecimento e do trabalho da arqueologia neste território”, perspetiva, ao sublinhar “a carga simbólica” associada à instalação de um pólo neste edifício. “Com a recuperação, a SMS tenciona criar um espaço de ligação entre o passado e o presente; numa parte do edifício que está perfeitamente destacada e que identificamos como a biblioteca de Martins Sarmento, onde existe ainda parte do mobiliário, pretende-se recriar uma biblioteca histórica, disponibilizando os livros que pertenciam a Martins Sarmento. O edifício terá, assim, características museológicas, permitindo a visita quer às colecções do pólo arqueológico, quer ao palacete, edifício do século XIX onde viveu Martins Sarmento, figura incontornável de Guimarães e do desenvolvimento da arqueologia no nosso País, “num ambiente propício ao contacto com o seu espírito, nos recantos onde viveu e trabalhou”.

Nesta altura, as especialidades do projecto estão a ser desenvolvidas para que seja submetido ao devido licenciamento e apresentada a candidatura ao financiamento do Norte 2030. O valor total do investimento ainda não está calculado, mas o Presidente da SMS mostra-se confiante na obtenção do montante necessário para executar o projecto que “honra a Instituição, mas também dignificará muito a cidade de Guimarães”. “É uma responsabilidade grande, porque a SMS tem a seu cargo diversas valências, obrigando a uma gestão que é um desafio diário. Mas, a reabilitação do palacete é uma projecto que as várias direcções da SMS perseguem há muito tempo! A ideia de valorizar este espaço, honrando o seu patrono, é uma responsabilidade de sempre das direcções da SMS”, asseverou.

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